[NÃO TEM COMO ENTREGAR CERTAS COISAS DE MANEIRA GENTIL]

[“Veja, o tratamento do silêncio é o pior. Eu devia ter te esperado dessa forma? Trancada do lado de fora esfregando as unhas na porta esperando alguém abrir. Estaria mentindo se dissesse que não houve esperança de uma virada dessas que surpreendem. Nem nunca começamos esse relacionamento. Nunca terminamos esse relacionamento. Afora isso, tudo aconteceu. Minha necessidade de somente sentir novamente, sentir tudo: é o som escroto da fome. Não há nada acima do prazer que devo dar aos homens. E eu sempre dei.

Ali, exatamente ali eu deixei tudo o que havia sobre mim e caí muito e muito rápido. Tudo acabou rapidamente, todo passado, todas as pessoas e todas as história das pessoas, as memórias, a poesia, o corpo, os amores. Toda e qualquer espécie de alegria, de dor, ou o que fosse conhecido ou o que eu esperaria conhecer, aquela pessoa com todos seus itens que seria eu, formaram um conjunto de bugigangas inúteis, pobres de sentido. Desintegrei, mas receberia esse sentimento muito novo e imenso e o recebi e beijei seu rosto e chamei de terror.

Sou seu pacote arranjado e besta, festivo. Nunca tive nada de bom por muito tempo e logo ia descobrir que também não teria você por muito tempo já que surgiria um acontecimento péssimo e essa coisa, essa coisa aconteceria e todas aquelas histórias e todo tempo que fiquei esperando a história acontecer, essa coisa… aqui na beira do rio eu me jogo de joelhos com pedra e lama e coloco a cabeça dentro da água pra então começar a beber em desespero antes que o rio acabe ou só porque não existe controle sobre a sede, a sede nunca acaba, nunca é suficiente. É isso que me aterroriza.

A onda veio e me derrubou de forma que hoje percebo como idiota. Rolei feito papel amassado. Uma vez. Três vezes. Sonhou com o quão incômodo era morrer tantas vezes e toda vez do mesmo jeito: por puro azar.

Você virado num país estrangeiro e confuso onde eu vou e eu não conseguiria pedir um copo de água por não dominar as regras básicas do idioma local. Fico ali vendo a boca se mexer em palavras que eu não entendo completamente por causa da diferença de fuso horário. Homens nunca são garantidos como um voo. Nunca mais vou esperar por nenhum deles. Algo ficou encaixado, algo ficou combinado, mas em lugar nenhum. É como esperar no desajuízo um voo incerto.

Na minha mente eu queria conversar e sentir que podíamos ser completos idiotas na Rua do Ouvidor, de mãos dadas. Ficou aborrecida porque, pensa você, esperar anos a fio o amor da sua vida aparecer justamente na sua vida e aí, de repente, esse amor zuar com a sua vida e com sua cara como se nada nunca fosse dotado de importância (alguma). O quanto de esperança burra você havia depositado naquele encontro? Não. Ou, vamos olhar melhor, talvez ele pudesse. Talvez ele fosse a pessoa certa, ou a pessoa certa contra todo o mal que nunca mais irá te atingir umas mil vezes. Resolvo não dispensar porque podia ser.

Todos os mundos e todos os poderes ou prazeres conhecidos até o momento viraram um emaranhado de vários nada, de porra nenhuma agora que você pegou minha mão como se isso fosse normal. Nada disso é comum. Você caminhando e as mãos juntas feito o poema do Borges e eu transitando entre o pânico e a paz do encontro dos nossos dedos, o meu polegar suando, ensaiando fugas e os seus buscando apertar mais ainda o entorno dos desejos e nunca me senti tão protegida pisando num chão.

Todo o resto eu poderia enforcar, suas memórias, enforcar com meu braço. Quero te ofertar o inferno. Estudei seu rosto e te matei dezenas de vezes num universo calmo de sonhos atrozes. Ele fizera de propósito e o propósito era a minha morte. Mas a paz ela é supervalorizada. Vou te machucar, mas não agora, juro.

Tinha ficado tempo demais no chão do corredor chorando publicamente e nada na minha vida é de graça, gente, toda vez que começo a acreditar, alguma coisa é estuprada e tomada de mim. Você quer ver a luz? Pisei em estranhas fronteiras de uma pessoa que era eu. O suor correu aos montes por cima de toda felicidade que eu nem nunca tive.

E eu amava, o alien, a coisa absurda que cresceu feito um apêndice, feito uma árvore inesperada. Aquele ser era imprescindível. Imprescindível. E sua ausência provocara uma destruição no nível do irrecuperável. O coração explodindo num sentimento de não faça isso, você não quer fazer isso, você não precisa fazer isso, corra, mas ataquei. Fica a ideia, aquela ideia recorrente de que eu não deveria estar aqui já que falta encaixe então conclui-se que tudo não passa de ficção. Vou vendo de fora, mas quero respirar, as mãos desenhando um grande círculo no mar. Ele some no meio das pessoas e já não consigo lembrar porque me deixei estar neste lugar. Lembrando de cada micro merda.

Alcanço o telefone para não sentir as coisas, mas sinto. Abro o aplicativo das mensagens novamente e eu não deveria ter feito isso porque não tem nada de você pra mim — o que faz todo sentido porque você tem estado ocupado. Bastante. O nosso timing parecia certo, mas agora não e agora sinto sua falta de uma maneira que não vou saber administrar. Eu compreendo cada questão, mas o ponto é que não consigo pensar direito quando a cabeça nublou e meu corpo começou a me trair e estou me debatendo, presa numa armadilha desde que ficou claro cada minuto sem saber se vou te ver ou que dia ou se vou ver, que horas, quando que você vai aparecer.

Logo você, logo você, vadia das noites, criança terrível, garrafa de vodca, brigando com os seguranças, sambando sozinha no carnaval, gargalhando, exposta, na noite de novo. Se eu começasse a chorar quando você mete em mim. Gosto de te lamber pra ir parar numa praia vazia. Seu nome na minha boca é uma casa.

Entenda que você nasceu para os homens, para a rua, para o vento frio e rápido da noite, os cabelos voando contra o rosto, sempre servindo, sempre caindo, menina. A boneca esfregou o rosto no chão, o rosto frágil já muito colado e recolado após inúmeras quedas onde se espalhou efusiva para diversão de todos que a amam no seu corpo de pano todo costurado. Talvez faltasse só um pedacinho da cabeça aqui e ali mas era imperceptível. Chinesa, vestida ou nua, em porcelana. O vento da queda quando se estabelece o fim do próprio ser, as mãos frias passando os dedos nos cabelos de plástico com um gesto rápido.

Se eu parasse de ficar procurando amor nos lugares errados tipo um blues, só que deselegante, tipo cantando o Transa do Caetano desafinando. Sua falta provoca diversos níveis de dor física e é tipo abstinência. Entregamos tudo muito rápido. É um sentimento de urgência que chega se arrastando pelo chão da sala e se prende no meu tornozelo rapidamente Existe esse desejo do compromisso com tudo o que me parece precioso.

Gritou que estava cansada e dessa vez deixou ele saber que ela andava sangrando. Era melhor não ir pro lado do drama. Sentiu vergonha das exigências que eram muitas. Infantis. Incontroláveis. Ela balançava a cabeça pras besteiras de criança exigente voarem. Cheguei muito abaixo de mim. Com cuidado para não arruinar tudo.

Quando a mente se parte numa série de sons imaginados que pensamos estar saindo de nossas próprias gargantas. Ansiedade é estar-se criando diálogos futuros em encontros futuros e revisando cada parte afim de que não se caia em uma conversa que lhe deixará constrangido. Aproveitei pra dar vazão à alguma cólera. O fim chegou de repente no meio dessa coisa estranha que você se acostumou e agora esvai. Quando respirou, o ar começou a passar muito forte pela garganta e já não se lembrava mais de como era a sensação de oxigenar.

Basta balançar os pés, as noções de si, mas já era agora onde estou, onde não dá mais pé porque esse é um sentido para um fim rolando aos empurrões das correntezas. Sou uma peça desencaixada, uma peça extra, nunca faltando, sobrando, descartável, você precisa se esquecer e afundar como se afundar fosse um compromisso e é, sempre foi. A liberdade chega quando estou suspensa e nua lá no fundo dos meus desejos.

Lindos dizeres bem vazios e honestos. Não é virtude. É só um impulso irremediável para existir feito gente, agarrada pelas unhas a lampejos de afetos verdadeiros. Eu quero ser gente, qualquer coisa normal, ter esperanças.

As pessoas presentes são isso: desconhecidos.”]

Minhas frases preferidas de textos da Prill Alves de Santana.
Leiam essa mulher.
Ela diz o que não se consegue dizer.
Ela diz o que foi impedido de ser dito.

[Literatura entre colchetes] Instagram: jordanamachado1

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