Menininho, tira o dedo do nariz, e tira o nariz, seus bedelhos, de onde não foi chamado. Passa brincar, passa. Menininho de calçola, vai lustrando o apartamento como centopeia, dança e corre, ri da barriga doer, ri até dar soluço, e deita de bruços no canto da varanda que pega sol.

Escala os colos, escolhe um livro que conta o dia em que Lúcia tocou um clarinete de um jeito tão bonito, fazendo os anjos chorarem, os catarros descerem e as peras da fruteira se encherem de pintinhas.

Um quadrado de lençol branco se enrugava no piso gelado, com menininho dormindo, as pernas de elástico tombadas pros lados que nem perereca, as mãos unidas atrás do pescoço que nem gente grande.

Os cachos melecados de suor grudando na testa, a boca lambuzada de café, a herança de dois pernilongos na coxa esquerda, no joelho da mesma perna uma pereba encascada do capote de bicicletinha que deu perda total, menos o menininho, levantando assustado e correndo-mancando: gente, gente, eu quase morri — uma mão no coração, talvez querendo saber se ele ainda batia.

[Literatura entre colchetes] Instagram: jordanamachado1

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