Lúcia, Lúcia, Lúcia. Ficava assim repetindo o nome mentalmente quando ela não estava por perto. Percebendo e decretando como a palavra Lúcia parecia luz, ou macia ou louça. A forma dela de segurar a xícara com fumaça saindo, as mãos unidas em forma de punhado, como que segurando um filhote, ou segurando o mundo como naquela gravura do livro de ciências da escola. Eram isso os jeitos e maneiras de Lúcia: capazes de transformar tudo em algo bonito a ser lembrado. E eu lembrava, e para não esquecer anotava, e para ser digno de Lúcia eu escrevia. Laudas intermináveis com uma Lúcia heroína e épica que iluminava os caminhos das mais perdidas batalhas; uma cotidiana e lírica Lúcia parando para descansar e comendo uma maçã debaixo de uma árvore; uma Lúcia satirizando quem se achasse muito sabido das coisas. Mas tinha uma Lúcia de todo dia, chegando de camisetinha listrada e cachecol, e se me ocorresse perguntar porque o cachecol se fazia calor e a camisetinha era a prova disso, eu engolia a questão, me reprovava, censurava a minha falta de habilidade em compreender de imediato a beleza que significava a Lúcia ali, mexendo na ordem, no sentido e na importância de tudo. Eu sabia que ela me amava porque me ensinava coisas. Disse pra eu segurar o cigarro com todos os dedos da mão bem esticados, como se eu tivesse acabado de pintar as unhas. Queria mostrar às pessoas que eu sabia o que estava fazendo. Amar esta mulher pareceu inofensivo como andar numa calçada. Pareceu um constrangimento que acabaria bem como aquele desencontro de zigue-zague que às vezes os pedestres travam, indo ambos para o mesmo lado, aquele sorriso amarelo como resultado. Até que um dia vem uma bicicleta no lugar de um pedestre e você para na cadeira do dentista com os poucos dentes sortidos que te restaram. A Lúcia é uma Caloi caiçara sem freio: gostosa, macia e perigosa. Disse que era pra eu correr bem forte e que o jeito certo de correr bem forte era forte o bastante pra gente sentir como se tivessem muitas formigas por baixo da carne das pernas. E eu corri, e pra não desistir corria mais, e para ser digno de Lúcia eu me jogava. E caí. Aquele primeiro tombo do qual todos se lembram e dele derivam todos os outros.

[O Eduardo Galduróz, devoto e afilhado de Guimarães, me convidou pra escrever na Um, dois, textando esse mês. Leiam o Eduardo. Tem pedrada dele aqui no Medium, na Revista Papo de Galo e pelas veredas do mundão.]

[Literatura entre colchetes] Instagram: jordanamachado1

[Literatura entre colchetes] Instagram: jordanamachado1