Todo dia de manhã uma plaquinha muito simpática era pendurada no portão. No mesmo horário, há 20 anos, lá ia ela pendurar a plaquinha. Ainda ficava na ponta dos pés para alcançar o lugar de sempre. O barbante que se agarrava na grade de ferro, e se agarrava nos gravetos da plaquinha, puído de tudo, se esfarelando quase. A letra dela na plaquinha, e não importava se o leitor ficasse confuso com o ene dela que parecia um eme, e o eme que parecia um conjunto de montanhas, ou então uma centopeia cheia de perninhas.

Feito isto, sentava na banquetinha atrás do balcão, do lado a garrafa de café, um pouco mais a frente o caça-palavras. Ligava o rádio bem baixinho pra que as palavras que estava ouvindo não se misturassem com as que estavam sendo lidas. Não gostou muito quando o caça-palavras começou a ficar temático e na mesma folha você podia encontrar termômetro, xarope e estetoscópio. Assim ficava muito chato e fácil. Gostava quando todas as coisas de todos os assuntos se embaralhavam, achava que ficava mais parecido com o mundo e a vida, e as coisas do mundo e a da vida.

Um dia caiu uma chuva imensa, borrando os escritos da plaquinha. Ela esperou a meleca toda secar e foi reescrevendo tudo o que a chuva apagou. Como já tinha escrito muitas vezes antes as mesmas coisas na plaquinha, então foi fácil. Repetir palavras também pode ser irritante. Ficou olhando a própria letra, que tantas palavras já tinha construído. Pensou também nas palavras apagadas pela chuva do tempo e em quem ela se transformava na ausência e na busca. Uma vida procurando as palavras.

No mundo e na vida as pessoas tinham que ficar procurando as palavras, e acertar com as palavras era difícil. Especialmente quando era preciso começar ou terminar alguma coisa. Começar era complicado porque dependendo do que você falasse o começo nem começava. Terminar era pior, porque o final das coisas é sempre com silêncio ou grito.

[Literatura entre colchetes] Instagram: jordanamachado1

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